O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira que todos os envolvidos em suspeitas de fraude em aposentadorias e pensões do INSS devem ser investigados, sem qualquer tipo de blindagem por parte do governo. Questionado sobre a operação da Polícia Federal que atingiu o alto escalão do Ministério da Previdência, Lula disse que a apuração partiu do próprio governo e que a investigação foi conduzida com cautela para evitar “pirotecnia”.
Segundo o presidente, a Controladoria-Geral da União levou cerca de dois anos apurando os fatos antes que qualquer medida mais dura fosse tomada. Em declaração que chamou atenção, Lula afirmou que, caso até mesmo um filho seu estivesse envolvido, também deveria ser investigado.
As investigações fazem parte de uma nova fase da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que apura fraudes realizadas por meio de descontos indevidos em benefícios do INSS. Nesta etapa, o secretário-executivo do Ministério da Previdência Social, Adroaldo Portal, teve a prisão domiciliar decretada e foi exonerado do cargo logo em seguida. Portal era considerado o número dois da pasta.
Além dele, o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo no Senado, foi alvo de mandado de busca e apreensão. A Polícia Federal aponta que o parlamentar teria atuado como “sustentáculo político” da organização criminosa investigada, além de ter influência direta em indicações estratégicas dentro do Ministério da Previdência e do INSS. Em relatório enviado ao STF, a PF sustenta que Weverton seria um “sócio oculto” das operações financeiras do esquema.
As apurações envolvem crimes como inserção de dados falsos em sistemas oficiais, estelionato previdenciário, organização criminosa e ocultação de patrimônio, em parceria com a CGU.
Dito isso, é impossível não fazer uma reflexão crítica sobre o discurso apresentado pelo presidente.
Eu não consigo conceber a ideia de que um governo, ao identificar indícios fortes de corrupção, considere razoável deixar um esquema desse porte operar por cerca de dois anos sob a justificativa de “investigar com seriedade”. Parece mais coerente imaginar que, diante de sinais claros de irregularidades, o dever imediato seja interromper a sangria, acionar os órgãos competentes e impedir que bilhões continuem sendo drenados dos cofres públicos.
Difícil não é denunciar sem apurar.
Difícil é permitir que a roubalheira continue enquanto se apura.
Outro ponto que chama atenção envolve o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Durante anos, qualquer menção a ele em denúncias de corrupção foi tratada como ataque político de adversários. Agora, pela primeira vez, surge um cenário diferente: o presidente da CPI do INSS, senador Carlos Viana (PSD-MG), relatou o depoimento de uma testemunha que aponta uma possível parceria comercial entre o empresário conhecido como “Careca do INSS”, personagem central do escândalo, e Lulinha, para atuação no Ministério da Saúde.
Até o momento, Lulinha não é alvo formal das investigações da Polícia Federal. Isso precisa ser dito com clareza. Mas também é preciso reconhecer que, pela primeira vez, o nome do filho do presidente aparece não apenas em discursos políticos, mas em relatos que fazem parte de uma apuração oficial em curso.
O próprio Lula afirmou que, se houver envolvimento de qualquer familiar, a investigação deve seguir sem exceções. A partir dessa declaração, resta agora acompanhar se o discurso será sustentado na prática.
Transparência não se mede pelo que se diz, mas pelo que se permite investigar.





